Metafisica de Morrowind Parte 3

Cultura Gamer // A Metafísica de Morrowind – Parte 3 – QUIMica Divina, ou: Como Vivec acessou o Kit de Construção

Terceira parte da tradução de “The Metaphysics of Morrowind“, estudo feito por Kate “Kateri”, analisando como o universo de The Elder Scrolls: Morrowind interage com o universo real. Pois gamers também são filósofos (e vice-versa!)

AVISO: O texto a seguir já é complicado por natureza, até para conhecedores do universo Morrowind, é altamente recomendado ler as partes anteriores antes de continuar!

 

QUIMica Divina, ou: Como Vivec acessou o Kit de Construção

“Certeza é para os lógicos e seus quebra-cabeças e garotas de glamour branco que a cultivam em tempo. Eu sou uma carta escrita em incerteza.”

-Vivec, 36 Lessons, Sermon 4

Eu escrevi, no post de introdução, que a série Elder Scrolls “faz coisas muito estranhas com a quarta parede, não exatamente a quebrando mas a modificando, movendo, torcendo, pintando de roxo e sentando em cima rindo”. A pessoa sentando ao topo da quarta parede, possivelmente algumas polegadas acima da parede em si, seria Vivec.

Vivec, também conhecido como Vehk, tem muitos papéis. Guerreiro, poeta, general, ladrão, amante, mentiroso, místico, assassino. Deus. O cara esquisito flutuante que lhe deu uma luva durante a quest principal de Morrowind. Ele é todas essas coisas e mais, mesmo que muitos jogadores só o reconheçam pela última. A menos que seja um daqueles jogadores, nesse caso ele é “o cara que eu matei só pra ver se dava, e se tinha alguma coisa legal nele”. Perdoem-me se pareço desdenhosa, mas tenho pouca simpatia por jogadores que tentam assassiná-lo. Eu sempre tive um carinho especial por Vehk. Tem muito a ver com seus livros.

Vivec

Vivec filosofa o mistério de sua cadeira desaparecida.

“Vivec é um poeta. Não acredite nas palavras de um poeta, pois é nascido para seduzir. Porém para que a poesia tome o coração, ela precisa ressoar ao tom da verdade.”

- Últimas Palavras de Sotha Sil

“Foi um desenvolvedor, pelado em uma sala com uma carteira de cigarros, uma garrafa térmica cheia de café e bourbon, e todos os seus anjos convocados.”

- Michael Kirkbride sobre escrever as 36 Lições de Vivec

Uma pequena tangente: jogos da Bethesda são esforços colaborativos, e da perspectiva do jogador, eles apenas enxergam “o jogo”, sem saber qual designer ou escritor contribuiu em qual parte. Entretanto, seria negligente da minha parte não mencionar o desenvolvedor da Bethesda Michael Kirkbride, autor de 36 Lessons of Vivec, e muitos outros textos de Elder Scrolls, tanto ingame quanto fora. Eu não posso, sinceramente, continuar sem aplaudir sua genialidade e contribuição para a série ES, até (especialmente) porque eu irei sem dúvida embaralhar e interpretar errado seu significado. Nos comentários da parte 2, Ken Rolston apontou a ele como o mestre por trás do Dragon Break, e não posso dizer que fiquei surpresa. Ele é, portanto, a quem se deve agradecer ou culpar pela maioria da metafísica e metajogo discutidos não só neste post, mas na parte 2 também.

O metajogo, sim. Eu vou falar disso. Primeiro, entretanto, eu quero relembrar algo que disse na introdução – Elder Scrolls é cheio de camadas, com muitas faces e caótico, como uma… cebola cristalina não-Euclidiana. Nesses posts, estou olhando a apenas uma camada, uma face, e, alguns diriam, uma das menos interessantes. Entretanto, eu acho que chamar a atenção para os aspectos de meta-jogo da história pode ser um atrativo efetivo para jogadores pensadores, um sinal de que há mais em TES do que em sua construção de mundo de fantasia comum.

Lendo entre os volumes

36 LessonsAs 36 Lições de Vivec é uma coleção de livros espalhada por Morrowind, um texto sagrado dividido em 36 volumes numerados, ou Sermões. São comuns em templos, livrarias, e casas, mas geralmente apenas um de cada vez, alguns volumes no máximo. Encontrados dessa forma, é difícil para o jogador saber o que fazer com eles. Sermões individuais são um prazer de se ler puramente pela linguagem e imagens, que inspiram-se em várias fontes religiosas, literárias, filosóficas e ocultas, enquanto mantêm sua voz única. As narrativas, enquanto frequentemente obscuras e ridículas, são cheias de charme, humor, e umas das mais descaradas eróticas já escondidas em um videogame recomendado para adolescentes. Elas tendem, porém, a parecer bobagem e sem sentido para o leitor tentando entender o que está acontecendo, algumas vezes a um nível mais básico. É possível, claro, que um jogador dedicado consiga todas, mas pode não ajudar muito. As 36 Lições são textos místicos, criptografados, cheios de referências internas, e usam um sistema de símbolos e metáforas que às vezes exigem referência à vários outros Sermões para se entender apenas uma linha. O esforço de trocar entre livros significa que um estudo completo ingame das 36 Lições é incrivelmente frustrante, e se eu sequer comecei, não fui muito longe.

Felizmente, esta não é a única opção: o site The Imperial Library tem mantido online cópias de textos ingame por muitos anos. Não tenho certeza o que me fez decidir, muito após eu ter jogado seriamente Morrowind, a reler as 36 Lições do começo ao fim, mas eu as li. No começo foi puramente por diversão, mas então uma linha me chamou atenção:

“O rei vigente está vestido de armadura da cabeça aos pés em fogo brilhante. Ele é perdoado por cada ato que toma. Sua morte é apenas um diagrama de volta ao mundo acordado.”

- 36 Lessons, Sermon 11

“Heh”, pensei comigo mesma, “até parece um personagem de um jogador, a quem a morte no jogo faz com que seu jogador seja jogado para fora do jogo e de volta ao mundo real.” Um pouco adiante, eu achei:

“O guerreiro imóvel nunca se cansa. Ele corta buracos de sono no meio da batalha para reganhar sua força.”

- 36 Lessons, Sermon 23

“Eu também faço isso”, eu sorri, “chama-se tomar poções de vida na tela de inventário enquanto o jogo está em pausa.” As 36 Lições contém várias insinuações à natureza digital do mundo – uma até refere-se ao artefato gráfico bizarro em TESA: Redguard – então não pensei muito profundamente sobre isso na primeira vez. Depois de um tempo, porém, referências começaram a se empilhar sobre esse “rei vigente”, e comecei a ler um pouco mais de perto. Aqui está uma passagem sobre como Vivec virou um “Rei vigente do mundo”:

“Então um Osso Antigo da terra subiu em frente ao simulacro da esposa do netchiman e disse, ‘Se você é pra nascer um rei vigente do mundo você deve confundi-lo com novas palavras. Deixe-me em pensamento.’

‘Muito bem,’ disse Vivec, ‘Deixe-me falar com você sobre o mundo, o qual eu compartilho com mistério e amor. Quem é sua capital? Já tomou a rota cênica da sua participação? Eu já – de leve, em segredo, perdendo velas por estarem no lado não verdadeiro, e corri minha mão pela borda de uma sombra feita de cento e três divisões de calor, e não deixei prova.’

Nisso o Osso Antigo dobrou em si mesmo vinte vezes até virar algo como leite, o qual Vivec bebeu, tornando-se o rei vigente do mundo.

- 36 Lessons, Sermon 4

OK. Então Vivec é um desses “reis vigentes”. Mas o que isso significa, exatamente? Eu achei uma dica no Sermão 12: “‘CHIM,’ … é a sílaba secreta da realeza”. Isto levou a algumas coisas se encaixando na minha cabeça, e aqui é onde eu deixo o aviso que algumas das minhas interpretações podem estar completamente erradas, e nesse caso espero que alguém me corrija. É também onde as coisas começam a derreter o cérebro, especialmente para aqueles que não estão completamente a par com os funcionamentos mais profundos da história de ES (ex: quase todo mundo, incluindo a mim), então espero que possa manter isto ao menos vagamente compreensível. Lá vai…

Na próxima parte: Uns e Zeros.

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